Etiópia: o colapso silencioso do Acordo de Pretória e o retorno ao limiar da guerra
TPLF reconstituiu o conselho regional pré-guerra em 6 de maio de 2026, Fano avança em Amhara e a Eritreia se reposiciona. A Etiópia não é mais um Estado pós-conflito — é um Estado em conflito multifrontal.
Resumo executivo
Em 6 de maio de 2026, a Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF) reconstituiu formalmente o conselho regional pré-guerra e reconduziu Debretsion Gebremichael à presidência da Região do Tigré. O ato consuma o colapso operacional do Acordo de Pretória assinado em novembro de 2022 sob mediação da União Africana. A Etiópia entra em novo ciclo de instabilidade com três insurgências simultâneas — Tigré, Amhara e Oromia — e relações com a Eritreia deterioradas ao limiar de guerra interestatal.
O Acordo de Pretória e seu fracasso
O Acordo de Pretória encerrou a guerra do Tigré (2020-2022), conflito mais letal da África na década, com estimativas entre 380 mil e mais de 600 mil mortos — maioria por fome induzida e colapso da infraestrutura médica regional. O acordo previa: cessação de hostilidades; desarmamento, desmobilização e reintegração (DDR) das forças do TPLF; restauração da autoridade federal; retorno de deslocados; e prestação de contas por atrocidades.
Três anos depois, apenas a cessação de hostilidades sobreviveu nominalmente. O Tigré Ocidental e Meridional permanecem sob administração da Região de Amhara. Em fevereiro de 2026, a Câmara da Federação removeu cinco circunscrições da supervisão tigrínia. A extensão unilateral do mandato do administrador transitório em 9 de abril de 2026 foi o gatilho; a reconstituição do conselho pré-guerra em 6 de maio é a resposta do TPLF.
Conflito de Amhara: as milícias Fano
A insurgência Fano explodiu em abril de 2023 após a tentativa federal de integrar as Forças Especiais Amharas ao Exército Nacional Etíope. Fano é uma constelação de milícias etno-nacionalistas com comando descentralizado. Em 2026, partes coordenam taticamente com o TPLF — inversão notável em relação ao alinhamento de 2020-2022. Marcos: Forças Fano entraram em Debre Tabor em 11 de fevereiro de 2026, incendiaram prédios federais; capturaram a cidade de Shewa Robit em 3 de abril, no eixo rodoviário entre Adis Abeba e Dessie.
Conflito da Oromia: OLF-OLA
O Exército de Libertação Oromo opera nas zonas de Wollega e crescentemente na periferia de Adis Abeba. Em março de 2026, reivindicou ofensiva a 100 km da capital. A Anistia Internacional documentou violência sexual, execuções sumárias e crimes de guerra cometidos por seus combatentes.
O fator Eritreia
Excluída das negociações de Pretória, Asmara trata o acordo como ilegítimo. A declaração de Abiy Ahmed de que o acesso ao mar via Assab é questão existencial para a Etiópia foi lida em Asmara como casus belli antecipado. Egito aproxima-se da Eritreia com modernização do porto de Assab. O realinhamento do Chifre da África: Etiópia + Somália (FGS) + EAU contra Eritreia + Egito + facções somalis dissidentes.
Três Cenários (12 meses)
- Reestabilização negociada (baixa-moderada): Pressão da UA e dos EUA leva a um Pretória-2 com referendo sobre o Tigré Ocidental e retomada de transferências fiscais.
- Estagnação multifrontal (alta — cenário base): TPLF mantém administração paralela sem iniciar hostilidades; Fano continua incursões; OLF-OLA expande na periferia da capital; Eritreia mantém pressão híbrida. Erosão incremental da autoridade federal.
- Escalada multifrontal com guerra interestatal (moderada): Incidente de gatilho produz hostilidades simultâneas Tigré-federal, ofensivas Fano e OLF-OLA, e guerra Etiópia-Eritreia por Assab.
Implicações Estratégicas
O modelo de mediação africana de Pretória foi desacreditado em sua aplicação mais visível. Etiópia, Sudão e Somália em crise simultânea deteriora a segurança do Mar Vermelho e do Bab-el-Mandeb. As três insurgências etíopes operam campanhas sofisticadas de guerra cognitiva via diáspora — caso paradigmático de fragmentação informacional acompanhando colapso do consenso estatal.