Sudão entra no quarto ano de guerra: o conflito esquecido que redesenha o Mar Vermelho
O Sudão tornou-se o laboratório do conflito por procuradores no século XXI. Análise da queda de al-Fashir, do impasse no Cordofão e da arquitetura de patrocínio externo entre Emirados, Egito, Irã e Rússia.
A guerra civil sudanesa entrou em abril de 2026 no seu quarto ano sem qualquer horizonte de cessar-fogo. O conflito que começou em 15 de abril de 2023 entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF), comandadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (RSF), do general Mohamed Hamdan Dagalo, o Hemedti, deixou de ser uma disputa pelo controle de Cartum e tornou-se a maior catástrofe humanitária do planeta — e o tabuleiro mais movimentado da nova competição geopolítica no Mar Vermelho.
Cerca de 14 milhões de sudaneses estão deslocados. Mais de 21 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda. A fome foi formalmente confirmada em Darfur e nas duas regiões do Cordofão. Ainda assim, o plano humanitário da ONU para 2026, que pede US$ 2,95 bilhões, está financiado em apenas 16%. É o pior índice de financiamento entre as grandes crises mundiais.
Um país partido pelo Nilo Branco
Três anos de combate produziram uma divisão territorial que já se parece com uma partição de fato. As SAF retomaram Wad Madani no início de 2025 e Cartum em março do mesmo ano. O primeiro-ministro Kamil Idris anunciou em 11 de janeiro de 2026 o retorno do governo à capital, embora a cidade siga em ruínas e sem serviços básicos plenos.
Já as RSF consolidaram o oeste. Em 26 de outubro de 2025, depois de dezoito meses de cerco, capturaram al-Fashir, último bastião das SAF em Darfur. Com isso, todas as cinco capitais regionais de Darfur passaram ao controle paramilitar.
A queda de al-Fashir não foi uma vitória militar comum. O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos documentou cerca de 6.000 mortes nos três dias seguintes à entrada das RSF na cidade, com o número real considerado significativamente maior. As execuções tiveram alvo étnico claro: civis das comunidades não árabes, sobretudo zaghawas, fur e masalit. O padrão repete o massacre de Darfur de 2003-2005, quando a milícia Janjaweed — embrião das atuais RSF — conduziu a primeira campanha de limpeza étnica da região. A ONU classificou os atos como crimes de guerra.
Cordofão é o novo eixo da guerra
Com Darfur consolidada e Cartum perdida, o centro de gravidade do conflito deslocou-se para o Cordofão. As RSF cercam atualmente El Obeid, capital do Cordofão do Norte, e analistas internacionais alertam que a cidade pode reproduzir o roteiro de al-Fashir.
O Cordofão é decisivo por geografia: controla as estradas que ligam Darfur ao corredor de Cartum e a ferrovia até Port Sudan, no Mar Vermelho. Quem estabilizar o Cordofão dita a geometria operacional de qualquer ofensiva nos próximos dois anos.
A arquitetura de procuradores: dois blocos, um impasse
O que mantém a guerra travada não é apenas a teimosia dos beligerantes. É a estabilidade do sistema externo de patrocínio. O conflito sudanês opera hoje como uma guerra por procuração de dois blocos — um modelo cada vez mais frequente no Sahel e no Chifre da África.
Bloco RSF — liderado pelos Emirados Árabes Unidos
- Emirados Árabes Unidos: principal financiador. As armas chegam às RSF por dois corredores logísticos — o aeródromo de Amdjarass, no leste do Chade, e bases ligadas a Khalifa Haftar, no leste da Líbia. Painéis de especialistas da ONU já documentaram armamento de origem chinesa em mãos das RSF, em violação ao embargo sobre Darfur. As receitas em moeda forte do grupo vêm da exportação de ouro extraído em Darfur, refinado nos Emirados.
- Líbia oriental (Haftar): corredor logístico, não patrocinador combatente.
- Resíduos do Wagner: a infraestrutura de mineração de ouro herdada do Grupo Wagner em Darfur (Meroe Gold) ainda alimenta canais paralelos de financiamento das RSF, mesmo após a reorientação russa pós-Prigozhin.
Bloco SAF — Egito, Irã, Rússia, Eritreia
- Egito: profundidade estratégica. Cairo trata uma vitória das RSF sobre o Nilo Azul como ameaça à segurança hídrica do sistema Aswan-Nilo.
- Irã: fornecedor decisivo de drones. As entregas de Mohajer-6 em 2024-2025 fecharam a defasagem aérea das SAF e foram materialmente importantes na retomada de Wad Madani e Cartum. O interesse iraniano é acesso ao Mar Vermelho, na frente oposta à Arábia Saudita — uma lógica análoga à do corredor com os houthis no Iêmen.
- Rússia: forneceu jatos Su-24, treinamento e o polêmico acordo de 25 anos para uma base naval em Port Sudan, com até quatro navios de guerra e 300 militares russos. Em dezembro de 2025, sob pressão saudita, o presidente Burhan informou Riad que o projeto está congelado. Não foi formalmente cancelado.
- Eritreia: cooperação fronteiriça e treinamento de milícias aliadas no leste do Sudão.
Arábia Saudita e Estados Unidos
Riad mudou de postura em 2026. Não está alinhada com nenhum dos lados e pressiona ativamente Abu Dhabi a reduzir o apoio às RSF. Jeddah continua sendo o principal palco das tentativas de mediação. Já Washington, em 2025, sancionou figuras tanto das SAF quanto das RSF — um sinal analítico de que o Tesouro americano avalia haver responsabilidade dos dois lados, e não um inimigo claro a apoiar.
Três cenários para os próximos doze meses
Cenário 1 — Partição congelada (probabilidade estimada: 50%). Nenhum dos beligerantes consegue mudança territorial decisiva em 2026. A divisão pelo Nilo Branco se consolida. O Cordofão vira zona de contato permanente, num modelo análogo ao do Donbas pré-2022. O patrocínio externo continua. A linha de base humanitária degrada-se ano a ano.
Cenário 2 — Avanço das RSF no Cordofão (probabilidade estimada: 25%). A queda de El Obeid no padrão de al-Fashir reabre a estrada para o oeste de Cartum e força as SAF à defensiva no corredor central. O indicador antecedente seria um surto de remessas emiradenses. Não é uma jogada vencedora — Port Sudan permanece fora de alcance — mas reequilibra a geometria de qualquer negociação.
Cenário 3 — Choque externo forçando acordo (probabilidade estimada: 25%). Dois caminhos possíveis: recálculo estratégico dos Emirados sob pressão combinada de Washington e Riad, ou um incidente marítimo no Mar Vermelho que arraste o Conselho de Segurança da ONU a um arcabouço mandatório. Em ambos os casos, o gatilho é externo. Os beligerantes, sozinhos, não convergem para um acordo.
Uma vitória militar limpa das SAF está excluída do horizonte de 2026. As SAF não têm massa ofensiva para retomar Darfur; as RSF não têm capacidade de guerra urbana para tomar Port Sudan.
Por que o Sudão importa para o Brasil e para o mundo
Quatro implicações estratégicas merecem atenção da comunidade analítica brasileira:
- O Mar Vermelho está sendo reconfigurado. A combinação da campanha houthi, dos drones iranianos no Sudão, da base naval russa pendente e da reaproximação Arábia Saudita-Irã coloca o Sudão como uma das dobradiças da nova competição multipolar nas rotas marítimas globais.
- A questão do genocídio em Darfur voltou ao tabuleiro jurídico. A constatação da ONU sobre crimes de guerra em al-Fashir aproxima o conflito do limiar formal de genocídio — com consequências previstas pela Convenção de 1948 que poucos Estados patrocinadores querem enfrentar.
- O Sudão é um teste de estresse da ordem humanitária pós-ocidental. Um índice de 16% de financiamento na maior crise de deslocamento do mundo não é anomalia orçamentária. Sinaliza que a coalizão de doadores que financiou respostas humanitárias no pós-Guerra Fria não se reúne mais para crises subsaarianas sem vetor de segurança para grandes potências.
- O modelo de procuração se exporta. A arquitetura de dois blocos externos sustentando um impasse territorial é a mesma vista na Líbia entre 2014 e 2020 e em partes do Iêmen. É hoje o desfecho mais provável de conflitos no Sahel e no Chifre da África — e merece um lugar na agenda de inteligência estratégica brasileira para o Atlântico Sul e a África Ocidental.
Quatro anos depois do disparo inicial em Cartum, o Sudão deixou de ser apenas uma guerra civil africana. Tornou-se o laboratório do conflito de procuradores no século XXI — e o mundo, por enquanto, optou por não olhar.